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segunda-feira, 12 de maio de 2014

A realidade dos números


José Martino (engenheiro agrónomo)

Numa altura em que se prepara para arrancar o PDR 2014/2020, devemos reflectir sobre o que é e o que queremos da agricultura nacional. Não tenho a pretensão de ter verdades consolidadas sobre este tema, mas procuro, acima de tudo, estudar, investigar e expor as minhas ideias.
Não serei o único, mas não posso deixar de dizer que me causou algum espanto o facto de na minha investigação para elaborar este texto, praticamente não ter encontrado nenhuma reflexão com profundidade sobre o que queremos fazer da nossa agricultura para a próxima década.
Além do estudo base do PDR 2014-2020, encontrei números macroeconómicos, num estudo de um grande banco nacional, que são úteis e fornecem pistas, mas a abordagem mais teórica carece de ser produzida quanto ao futuro.Encontrei também uns números na base de dados do INE. O que sabemos é que o PIB agrícola, em 2011, foi de 3,48% e o VAB (valor acrescentado bruto) obteve um acréscimo de 9,6%, em 2013 (INE), inferior a Grécia e Espanha.
Sabemos também que a agricultura representava em 2011 6 mil milhões de euros (80% da produção primária), com 3,2 mil milhões para os frutos, as hortícolas, os cereais, o vinho e o azeite; 2,4 mil milhões para animais, leite e ovos.
Sabemos ainda que a dimensão média das explorações agrícolas, em Portugal, (12,7 ha) é substancialmente inferior à da Espanha (24,56 ha), e a produção agrícola per capita é inferior à da Grécia e à da Espanha; e o défice da balança comercial agrícola é de 3,8 mil milhões (+ 9% que em 2009).
O que fazer, então? Alavancar os negócios através da introdução de mais valor acrescentado. Isso só se consegue com uma série de premissas, que passam pela economia de escala (maiores SAU), mais valor na comercialização, através de mais inovação na produção dos produtos (formas de apresentação diferenciadas, nichos de mercado especializados, através da maior qualidade dos produtos e da certificação), incremento da produtividade sem diminuir a qualidade, através do maior domínio do processo de produção, fazer a operação certa na hora certa, evitar erros e corrigi-los de forma rápida e eficaz, através da aposta no conhecimento de gestão, técnico e científico, acesso à água (Alqueva e restantes regadios). Falta, ainda, quantificar os objectivos para melhorar o valor acrescentado bruto nas diversas fileiras.
Recentemente, o Dr. Licínio Pina, presidente do Conselho de Administração Executivo da Caixa Central do Crédito Agrícola, apontou um objectivo ambicioso, demonstrando enorme clarividência: o PIB agrícola deve atingir 10% do PIB nacional. A tutela do sector deve levar em linha de conta estas metas e agir em conformidade. Assim como, os líderes de opinião devem ter este tipo de ambição e estimular o sector para lutar por esta meta. O Dr. Lícinio Pina está a fazer bem a sua parte, eu tento também fazer a minha.

artigo de opinião publicado no jornal "Vida Económica", em 09 de maio de 2014

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