A vida tem de continuar

A vida tem de continuar
por José Martino, Empresário e consultor agrícola
Numa altura em que graves problemas assolam uma instituição financeira de prestígio, devo dizer que o que mais me tem tranquilizado, e me continua a fazer acreditar na solidez do nosso sistema bancário, não são as palavras que tenho ouvido aos mais altos responsáveis do Governo e do Banco de Portugal.
Elas são bem-vindas mas não passam, para já, de meras manifestações de intenção. O que realmente me tem tranquilizado é o comportamento sereno e imperturbável das outras instituições financeiras que são o núcleo duro do nosso sistema bancário.
Numa altura em que o regime parece ruir à nossa volta e que cresce na população um sentimento de crescente distanciamento da classe política e governativa e da própria democracia, é reconfortante ver um importante banco apoiar e debater o "estado da nação" agrícola. E perceber que a vida das empresas, das instituições financeiras e da sociedade civil não pode parar.
Nos últimos dias, fixei duas ideias fortes: a necessidade de dar massa crítica, mais dimensão e garantir mais capitais próprios aos empreendedores agrícolas e o investimento na sua formação de base. A primeira ideia teve como autor o presidente do BCP, Nuno Amado, a segunda o reitor da UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Não podia estar mais de acordo. Aliás, há já muitos anos que venho defendendo estas duas premissas em artigos nos jornais e no meu blogue (josemartino.blogspot.pt). Garantir a exequibilidade destas duas ideias é ponto-chave e decisivo para se alterar o paradigma da agricultura em Portugal. Isso só pode ser possível através de medidas de política governativa que assumissem a rutura com um modelo de apoios públicos ao investimento que está obsoleto.
Enquanto se tratar tudo e todos pela mesma bitola, sem se privilegiar quem arrisca, quem investe na sua formação, quem olha para a agricultura como um projeto de vida, um negócio a rentabilizar e a criar emprego, então estaremos sempre a marcar passo. Espero que os responsáveis governativos do Ministério da Agricultura traduzam em medidas legislativas as assertivas palavras do líder do BCP e do reitor da UTAD.
Se assim não for, podem mudar as pessoas à frente da gestão dos 4,4 mil milhões de euros de fundos comunitários à disposição do Programa de Desenvolvimento Rural 2014--2020, mas, no final do dia, as notícias serão de devolução de fundos a Bruxelas e de uma realidade agrícola nacional sem alterações de fundo.

Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de hoje (edição impressa)

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