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domingo, 23 de novembro de 2014

Porcos Bísaros

Maria João Garcia disse:



Sou mais uma de muitas jovens desempregadas deste país, mas com muita vontade de trabalhar e construir o meu próprio negocio. Desde sempre tive um grande fascínio pela suinicultura, e com estes novos apoios comunitário penso ser a altura certa para me dedicar a este projecto agropecuário de exploração do porco bísaro.

A vontade de trabalhar é muita mas também preciso de algumas luzes e linhas de orientação deste ramo, já tentei visitar várias explorações e falar directamente com produtores mas a abordagem não tem sido nada fácil, a grande maioria recusa a minha visita ou a resposta as minhas duvidas. Já pesquisei bastante informação na Internet e foi aí que encontrei o seu contacto. A pesquisa online tem sido positiva no sentido de me familiarizar mais com a raça, mas ainda tenho muitas duvidas e nada substitui falar com alguém experiente na área. Peço desculpa pela minha ousadia mas é sem duvida a única pessoa que me poderá ajudar com a sua opinião e experiência.

Assim, e torcendo por uma resposta positiva, as minhas principais dúvidas são:

Tipo de exploração?? é só aconselhado o sistema extensivo correcto? na sua opinião o ideal é  utilizar o sistema ar livre (camping) em todo o ciclo produtivo, recorrendo ao uso de abrigos como maternidades e gestações ou acha que o preferível é não ter nenhum tipo de boxe. 

Estava a pensar entre 60 a 100 porcas reprodutoras acha que o número é insensato e que são demasiadas porcas? 

Outra grande dúvida é como entro no mercado da comercialização? Na minha zona (Nordeste Transmontano) consigo entrar em algum mercado, mas penso que será imprudente apenas restringir-me a minha área de residência mas também não sei como contactar empresas que precisam do meu produto. Penso ser este o ponto que neste momento mais me preocupa. Apesar de concordar plenamente como o que  disse no seu artigo de opinião para o JN "Não me revejo na frase "fácil é produzir, difícil é comercializar". É difícil produzir, quando se quer ter qualidade, o perfil do produto que o mercado quer trocar por euros."

E por ultimo gostava de saber a sua opinião deste projecto, acha que tem potencial económico? Ou pensa que o mercado já não é suficiente para a quantidade de explorações existentes na zona de Trás-os-Montes. De salientar, que pretendo dedicar-me a este projecto e torná-lo aliciante, rentável e acima de tudo inovador, marcar pela diferença. 

Peço desculpa novamente pela minha ousadia e pela forma pouco clara ou até mesmo reveladora de certa ignorância como expôs as minhas duvidas,

Desejo puder contar consigo

Muito obrigada"
 
Comentários:
1 -  Saúdo como muito positiva a atitude dos jovens e de muitos outros portugueses, por terem vontade e estarem dispostos a pagarem os respetivos custos pessoais ("o sacrifício que sentimos  dentro de nós": o frio no estômago aquando das decisões duras e difíceis que exigem coragem para serem tomadas (nalgumas delas não há a certeza sobre se a decisão  trará os melhores resultados no futuro) a sensação interna de insegurança mesmo quando as circunstâncias exigem que se esteja imperturbável e à "prova de bala", as noites de insónia, etc. etc.) para serem empreendedores.
 
2 - Tem perfil de empreendedora? Tem jeito, capacidade, competência ou feeling para avaliar os negócios e as pessoas?
 
3 - Consegue imaginar o seu dia a dia no trabalho e gestão da suinicultura? Com base nesse cenário, está disposta a pagar os "custos pessoais" identificados em 1?   
 
4 - Infelizmente parece caminhar-se na ideia que a internet resolve todos os problemas, o que me parece uma falácia sobretudo no que diz respeito aos negócios da agricultura. As visitas, o contato direto com os agricultores e empresários, os estágios, são a base para se obter a chave do sucesso na instalação dos jovens agricultores e outros empreendedores.  
 
5 - Obter autorização para visitas a explorações e respostas às dúvidas que existem, não são tarefas fáceis de obter porque por um lado, noto que há agricultores e empresários agrícolas que sofrem um "fenómeno novo", praticamente todos os dias são confrontados com inúmeros contatos de potenciais interessados nessa atividade, os quais alteram o funcionamento normal do trabalho nas explorações agrícolas e por isso, recusam as visitas e contato, e por outro lado, quem procura informação não faz a devida preparação prévia e o dialogo não motiva o interlocutor para se envolver e responder. Defendo que neste aspeto há um único caminho a percorrer: "caminhar". Houve recusa de uma visita, devo perguntar-me: porquê? O que devo melhorar para empregar no próximo contato? Que pontos/aspetos podem ser ganhos futuros, quer financeiros, quer outros que possam ser utilizados para reatar o dialogo profícuo e eficaz ,neste e nos próximos contatos?
 
6 - "...é sem duvida a única pessoa que me poderá ajudar com a sua opinião e experiência":
a) Não sou o único porque há muitas pessoas fascinantes, anónimas, competentes, muito conhecedoras que estão dispostas o promover o progresso e a ajudar quem o merece. Recomendo que faça o seu "caminho" e as encontre.
b) Posso opinar de forma sumária sobre o exposto mas na minha perspetiva necessita de outro apoio técnico mais ajustado ao seu caso concreto ,à sua pessoa ("os agrónomos são como os médicos, precisam de ver o doente para fazerem o diagnóstico correto").
 
7 - O sistema de produção dos porcos bísaros deve ser aquele que se mostra mais eficaz na região, creio que será o semi-intensivo. O número de porcas indicado parece-me adequado para ter sustentabilidade económica na sua exploração se conseguir geri-la de forma eficaz. Exige um investimento elevado. Recomendo que comece com uma quantidade inferior (30 a 50%).
 
8 -Percebo que não concorde com a frase que escrevi no JN porque não conhece suficientemente bem a realidade da agricultura e do seu mundo. Infelizmente verifico que é verdadeira: quem é  capaz de produzir o tipo de produto que o mercado quer trocar por euros, tem maior probabilidade de obter sucesso, ganha mais dinheiro, tem maior rentabilidade. 
 
9-  Preconizo que se integre num Agrupamento de Produtores. Caso não seja possível faça o que denomino como "projeto de autor" - marca própria na exploração agrícola e na comercialização. Elabore um Plano de Negócios, estime com pormenor os custos de investimento e de exploração, bem como os respetivos rendimentos.
 
9 - Creio que este tipo de empreendedores poderão ter mais sucesso se após terem o Plano de Negócios consigam fazer parcerias com Business Angels (BA). 
 
10- Os empreendedores com Planos de Negócios que se queiram candidatar a serem meus parceiros de produção na agricultura, na minha qualidade de BA, podem apresentar candidatura  para sofia.freitas@rurisocieta.pt  
 

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