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sábado, 7 de janeiro de 2017

Cogumelos

Trabalho jornalístico publicado na AGROVIDA (suplemento mensal do semanário Vida Económica sobre agricultura) no passado dia 6 janeiro de 2017, da autoria da jornalista Teresa Silveira, o qual contém as minhas opiniões sobre o cluster dos cogumelos

“Portugal tem condições excecionais e os cogumelos
irão ser negócio ao longo do território continental”

“Portugal poderia ter algum
peso internacional na produção
de cogumelos se o custo da
energia e dos combustíveis
fosse mais baixo e competitivo,
em linha com os custos dos
países concorrentes diretos.
E também se a estratégia de
abordagem aos mercados
internacionais fosse apoiada
politicamente para ser mais
aprofundada e competitiva”,
afi rma José Martino, CEO da
Espaço Visual.
Em entrevista à “Vida
Económica”, este engenheiro
agrónomo não tem dúvidas:
“Portugal tem condições
excecionais” para a produção
neste setor. Mas é preciso
“massa crítica empresarial,
bem como ‘players’ da
comercialização com escala
logística”. E também que a
estrutura de gestão do PDR
2020 “analise a enorme
quantidade de candidaturas que
tem em carteira”.
TERESA SILVEIRA
teresasilveira@vidaeconomica.pt

Vida Económica - Portugal
tem condições de se afi rmar
como um produtor de cogumelos?
José Martino - O negócio
dos cogumelos assenta na comercialização
das produções de
duas formas de produção: em
substrato e troncos de madeira e
nos cogumelos silvestres recolhidos
nas fl orestas, ocupando, em
volume de negócios, o terceiro/
quarto lugar dentro das hortícolas.
A produção de cogumelo
branco em substrato é um negócio
verticalizado, da produção à
comercialização, tirando partido
das economias de escala, do
saber produzir, da logística integrada
e, sobretudo, do menor
custo da mão de obra necessária
para a colheita, a qual tem peso
na estrutura de custos do negócio.
negócio.
Assim, Portugal poderia ter
algum peso internacional neste
segmento se o custo da energia
e dos combustíveis fosse mais
baixo e competitivo, em linha
com os custos dos países concorrentes
diretos. E também se
a estratégia de abordagem aos
mercados internacionais fosse
apoiada politicamente para ser
mais aprofundada e competitiva.

VE – Então, precisamos de mais
escala e massa crítica, é isso?
JM - Para os cogumelos provenientes
das produções em
troncos há grandes difi culdades
de competitividade devido à
micro e pequena escala dos produtores,
à sua defi ciente massa
crítica empresarial, bem como
‘players’ da comercialização com
escala logística reduzida, etc.
Neste segmento, há oportunidades
para os ‘projetos de autor’,
da produção à comercialização
com marca própria, sejam individuais
ou coletivos. Neste último
caso tenho expetativa que Amarante
venha a ter sucesso na sua
estratégia. Na minha opinião,
é pouco provável que Portugal
venha a ser um produtor de referência
mundial devido à realidade
que descrevi. No entanto,
existe potencial, temos fl orestas
com alta capacidade produtiva
e baixos custos na produção da
matéria-prima troncos de carvalho
ou eucalipto, temos regiões
com invernos e verões suaves e
começa a haver conhecimento
que poderia ser transferido para
os produtores ganharem massa
crítica competitiva.
No terceiro segmento, recolha
e valorização de cogumelos
silvestres, o potencial é enorme.
Estamos a falar de dezenas ou
até centenas de quilos por hectare
e por ano, para centenas
de milhar a milhões de hectares
em várias regiões de Portugal.
Sobretudo nas regiões de baixa
densidade, a produção de cogumelos
assume um valor muito superior à produção de madeira,
infelizmente recurso desprezado
face ao seu potencial total.
É preciso desenvolver o cluster
do cogumelo silvestre, recurso
endógeno, para o valorizar em
Portugal.

VE - Da experiência que tem,
como olha para a evolução
desta atividade em Portugal? É
rentável e com futuro?
JM - Da minha experiência de
vinte anos na consultoria agrícola
posso concluir que a produção
de cogumelos em Portugal está
a fazer o seu caminho, de forma
errática, por tentativa e erro, não
queimando etapas, não fazendo
as coisas bem-feitas às primeiras
tentativas, porque falta um
instrumento público de política
que alinhe os agentes públicos e
privados em prol dos superiores
interesses públicos do cluster,
um plano estratégico de desenvolvimento
de fi leira que identifi
que os objetivos de cada um
dos seus segmentos e os respetivos
e planos de ação. A rentabilidade
e o futuro da atividade
em Portugal dependem direta
e exclusivamente da competência
dos ‘players’. E posso atestar
que há um segmento restrito
deles que são dos mais competentes,
para as condições envolventes
de organização média a
fraca, pertencentes aos segmentos
dos melhores, mais competentes
a nível global. Portugal
tem condições excecionais, pela
sua fl oresta, pela aposta política
que está a acontecer, pela gestão
equilibrada e regulada da recolha/
apanha, e irá incrementar
e valorizar de forma exponencial
os cogumelos silvestres, produtode alto valor acrescentado, em
linha com as novas tendências
do mercado de consumo, cujo
valor de venda é superior ao da
carne.

VE - Em Portugal, há margem
para a produção de cogumelos
crescer ainda mais nas várias
regiões do país?
JM - Na minha perspetiva,
os cogumelos irão ser negócio
ao longo de todo o território
continental, privilegiando-se os
modos de produção e espécies
mais ajustadas a cada região.
Creio que se a recolha de cogumelos
silvestres estivesse organizada,
melhor organizada, com
normalização e embalagem no
país, provavelmente o valor do
negócio apareceria distribuído
ao longo de todo o território de
Portugal.

VE – E o PDR 2020? Está a
dar a resposta adequada aos
projetos de investimento neste
setor?
JM - O PDR 2020 está a fazer
o seu caminho de analisar e
aprovar a enorme quantidade
de candidaturas que tem em
carteira. É muito importante
que este caminho que está a
ser percorrido pelo Ministério
da Agricultura termine rapidamente.
É previsível que seja
uma realidade até março de
2017, para interromper esta
suspensão de futuro que está
a gerar nos milhares de jovens
agricultores, os quais têm a
sua vida suspensa, a maioria há
mais de um ano, na expetativa
e esperança de obterem os
apoios para se instalarem rapidamente
na agricultura.

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