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sábado, 16 de dezembro de 2017

Artigo publicado no semanário Vida Económica 2017.12.15 - Um apelo ao Presidente da República


José Martino
Consultor e empresário agrícola
É com enorme consideração e respeito pelo papel que o Presidente da República tem assumido nos últimos meses perante a tragédia que se abateu sobre o Interior do País, fustigado pelos incêndios dos últimos meses, que lanço ao Professor Marcelo este apelo.
Não é um apelo isolado e de alguém que teve e tem alguma representatividade institucional junto dos agricultores portugueses. É um apelo de centenas, para não dizer milhares, de jovens agricultores, que me endereçam todos os dias emails para o meu blogue (jose.martino@blogspot.pt) denunciando a falta de apoios do Estado aos jovens agricultores do Interior – apesar de alguma “propaganda” fazer crer o contrário.
Eu sou apenas o veículo deste apelo desesperado – talvez porque tenho algum acesso ao espaço público, talvez porque acreditam esses jovens agricultores que a minha luta de muitos anos em defesa da agricultura portuguesa merece que eu seja o seu porta-voz.
E assim sendo, não posso nem quero defraudá-los. E a questão, Sr. Presidente é esta: porque é que mais de metade dos projetos de candidatura dos jovens agricultores aos fundos comunitários através do PDR2020 para se instalarem na agricultura, os quais estão em análise não serão apoiados com o argumento de que não há orçamento disponível? Mais Sr. Presidente, sabe que se o projeto de um jovem agricultor não obtiver apoio do PDR2020 não consegue que a banca o apoie através de crédito ao investimento? Sabe V. Exa. que neste momento é fácil obter crédito com custo de 1% para comprar carro novo ou casa, investimentos estes que geram importações e criam riqueza de forma limitada limitada e que pelo contrário, os jovens empreendedores em projetos que criam riqueza quando têm acesso ao crédito estes tem custos muito elevado (acima dos 4%)?

Então não é a agricultura portuguesa uma prioridade? Então o Interior não merece e deve ser apoiado, depois desta tragédia? Reflorestar, sim. Reconstruir, sim. Indemnizar, sim. Mas também ajudar e apoiar a agricultura, zonas sem combustível da biomassa entre manchas florestais e aqueles que podem regressar o investimento, a iniciativa, a riqueza, a inovação, a agricultura digital e de precisão, enfim, o futuro desenvolvido e sustentável.
Porque é que o orçamento de Estado não canaliza mais verbas para o apoio e o financiamento dos projetos destes jovens agricultores? O orçamento não estica? Claro que não. Mas a política governativa é eleger prioridades, apoiar umas medidas e ações do PDR2020 em detrimento de outras, estas serão aquelas que vão de encontro aos superiores interesses públicos de Portugal, e.g. a 1.ª instalação de jovens agricultores (uma reforma estrutural porque só 7% dos empresários agrícolas são jovens, muito abaixo da média da União Europeia).

Nos tempos da crise, a agricultura foi a almofada social que amorteceu muita da crise social e económica. Muitos jovens regressaram à terra em boa hora, rejuvenescendo um setor envelhecido e obsoleto, mas tal mudança estrutural não pode parar porque mais de 50% dos agricultores e empresários agrícolas ainda têm mais de 60 anos.
Hoje, a agricultura é um dos setores económicos onde mais se incorpora a inovação, a modernização. Esse valor acrescentado, trazido pelos jovens empresários agrícolas, está bem evidente no aumento das exportações dos nossos produtos agrícolas.
Por isso, Sr. Presidente, do alto do seu magistério e da sua incontornável influência, lanço-lhe a proposta da concretização de uma grande conferência sobre os jovens agricultores portugueses, a realizar em Figueira de Castelo Rodrigo, no centro/interior do país, onde esses problemas se fazem cada vez mais sentir, desafiando os principais bancos que operam em Portugal a explicar o que fazem e o que poderão fazer para apoiar melhor estes empreendedores, bem como visitar alguns dos projetos instalados e a instalarem-se tendo como o objetivo conhecer in loco a realidade e fazer com que a sociedade portuguesa tenha consciência do desafio do que é um jovem investir no Interior e dar durante um dia a notoriedade devida aos seus problemas e respetiva resolução.

Acredito que é sensível, como tem mostrado, a esta problemática. E, se assim for, julgo que o País dará um passo em frente, a nossa economia ficará mais forte e robusta e o país mais equilibrado e homogéneo.


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