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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A fileira do leite e o QREN

Maltratada, esquecida, ignorada, muitas vezes vilipendiada, a agricultura portuguesa tem de ser um dos pilares fundamentais da nossa actividade económica, como ainda se recentemente provou com as notícias sobre a crise alimentar.
É essa crise que nos deve fazer reflectir sobre o modo como temos olhado para a nossa agricultura. E deve fazer pensar os nossos governantes, que têm descurado os apoios a um sector que continua a ter muito potencial competitivo.
Esse potencial competitivo foi, recentemente, demonstrado por uma fileira que faz o seu caminho e que aposta na sua expansão e internacionalização: a fileira do kiwi. Mas esse potencial competitivo, devidamente sublinhado pelo Ministro da Agricultura, não caiu do céu, foi construído com base na inovação, na utilização de novas tecnologias, na definição de nichos de mercado com determinadas características, na investigação. E, por fim, na dedicação e no trabalho.
Esta fileira tem muito para dar ao país. Espero que o Governo perceba (julgo que percebe) a riqueza que a kiwicultura pode produzir, e os postos de trabalho que pode criar.
Numa altura em que se definem as candidaturas ao QREN (Quadro de Referência Estratégica Nacional) e respectivos apoios, quero sublinhar que a escolha política das fileiras estratégicas – como as frutas, as flores e hortícolas, o azeite e o vinho, assim como os produtos IGP (Indicação Geográfica de Proveniência); DOP (Denominação de Origem Protegida) ou os produzido em modo biológico ou tradicional – garantindo-lhes prioridade no acesso aos fundos e uma majoração entre 5 a 10% de apoio financeiro, esquece, sem razão, a fileira do leite. Porquê? É necessário uma grande transformação na actividade produtiva para incorporar no preço do leite os custos do licenciamento das explorações, do cumprimento da legislação ambiental e do bem-estar animal, bem como a racionalização da produção para minimizar os custos energéticos e dos combustíveis.
Mas a competitividade da nossa agricultura não pode fazer-se se os prazos para pagar os subsídios aos agricultores continurem a não ser cumpridos. O Estado Português deveria dar um sinal de confiança aos agricultores e seus agentes, cumprindo escrupulosamente as datas de aprovação e pagamento das diversas ajudas.
O sector vinícola é um exemplo da gravidade do não cumprimento desses prazos. As candidaturas foram aprovadas até Abril/Maio deste ano, quando, por lei, têm que estar impreterivelmente concluídos os investimentos nas vinhas até 31 de Maio de 2008. Como nesta altura não é possível fazer a implantação das vinhas e a legislação europeia impõe que os pagamentos sejam feitos em Junho/Julho de 2008, o agricultor tem de desistir do projecto ou que suportar o custo de uma garantia bancária no valor de 120% do valor da ajuda.
Face a isto, deixo uma proposta ao Ministério da Agricultura: sempre que não possa pagar em determinado ano as ajudas a que os agricultores tenham direito por insuficiência orçamental, deveria enviar um documento escrito indicando o montante em dívida e a nova data de pagamento no ano seguinte. Como esta informação não existe até à data, os agricultores e, sobretudo, os jovens agricultores, não têm possibilidades de financiarem junto da banca.

José Martino
Engenheiro Agrónomo

sábado, 6 de setembro de 2008

NOTÍCIAS DO MUNDO RURAL

A produção de uvas é uma novidade no Nordeste brasileiro
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UVA NO NORDESTE BRASILEIRO
DÁ DUAS SAFRAS ANUAIS

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A região Centro-Sul [do Estado do Ceará, no Nordeste do Brasil] amplia os cultivos na fruticultura. O município de Iguatu é pioneiro no plantio de uva. Este município, que já foi o maior produtor de algodão do Ceará, nas décadas de 1950 a 1970, e actualmente é um dos maiores produtores de arroz irrigado, mantém a vocação agrícola e começa a diversificar a lavoura. A produção de frutas nos últimos três anos vem ganhando cada vez mais espaço e a novidade neste segundo semestre é a safra pioneira de uva, num projecto que abrange quatro produtores, totalizando seis hectares.
As primeiras colheitas começaram numa área de 1,2 hectare (ha), localizada no Sítio Várzea de Fora, próximo à cidade de Iguatu. O produtor rural José Dantas foi um dos primeiros a aderir, no início do ano passado, ao projecto implantado pela Secretaria Municipal de Agricultura, em parceria com o Instituto Agropolo e com os produtores da região.
Nesta semana, Dantas colheu três toneladas de uva, da variedade Itália. “É uma colheita inicial, que a gente chama de safrinha”, explicou. “É um primeiro passo até para aprender com os erros”. Depois de um ano e meio de trabalho com a implantação do projeto, investimento e custeio, num valor total de R$ 80 mil [cerca de 30 mil euros], o produtor de uva mostra-se satisfeito. Em Dezembro, Dantas deve colher mais 12 toneladas.

QUALIDADE E SABOR

A uva dá duas safras anuais. Os dois primeiros anos servem para estabilizar a produção. A partir do terceiro ano, deve chegar a 50 toneladas por ano, por hectare. Essa é a meta dos produtores no município. “As nossas perspectivas são boas”, diz Dantas, que passou a ser conhecido como “Zé da Uva”. Na sua área, a colheita deve durar dez dias. “Em face da qualidade do solo, a produção foi antecipada em 20 dias”.
O que chama a atenção dos técnicos locais não é a produção de uva, pois há várias áreas implantadas no sertão cearense, mas a qualidade dos frutos, que apresentam elevado índice de açúcar. “Tem qualidade e sabor muito adocicado e por isso teve boa aceitação entre os consumidores”, confirma Dantas. A produção está sendo comercializada para o mercado local. O preço do quilo é vendido por R$ 2,00 [cerca de 80 cêntimos de euro] para um distribuidor de frutas da região.
De acordo com o secretário de Agricultura de Iguatu, Valdeci Ferreira, o mercado de frutas é amplamente favorável. No caso da uva também não há dificuldade de escoamento da produção. Ferreira comemora o resultado do crescimento do projecto de fruticultura implantado há três anos no município. “Temos um potencial de água e de solo e há várias instituições que trabalham com o sector agrícola”, observou. “Esse quadro é favorável para o desenvolvimento da fruticultura”.
Três anos depois, Iguatu já desponta como o maior produtor de frutas do Centro-Sul. Segundo a Secretaria de Agricultura, já estão em andamento e com elevada produção, 120 hectares de banana, 30ha de goiaba, 6ha de maracujá, 10ha de melancia, além de tomate, abóbora e milho verde.
“O primeiro passo foi sensibilizar os produtores e em seguida entramos com apoio técnico”, disse Ferreira. “Os produtores têm coragem de trabalhar, mas precisava de orientações técnicas adequadas porque não conheciam a tecnologia de produção de frutas”. De acordo com o secretário, os resultados são favoráveis. A maioria dos produtores já está ampliando as áreas.
O técnico da Secretaria de Agricultura, Venâncio Vieira, confirma a ampliação das áreas de frutas, com o cultivo de maracujá e goiaba, espécies já plantadas na região.
FONTE: “Diário do Nordeste”, 06-09-2008