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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Conselho para iniciar projecto agrícola

Boa Noite, Sr. Eng. José Martino,

Sou um jovem de 33 anos, sem formação agrícola, mas que está empenhado em mudar de vida e iniciar um projecto agrícola e queria pedir-lhe a sua opinião e alguma orientação antes de avançar para algo mais concreto. 

Passo a explicar a minha situação, os meus sogros têm um terreno no baixo Alentejo de 70ha com sobreiros plantados há cerca de 20 anos, o terreno tem uma barragem e na sua extensão passa  uma canal de rega aberto pertencente à associação de regentes mas que nós também temos acesso.

Actualmente não se tira qualquer rendimento do terreno estando este sem qualquer tipo de tratamento, a terra não é gradada a poda das árvores não é feita e alguns sobreiros estão a secar. 

Com estas condições gostaria de saber se existe alguma possibilidade de iniciar alguma actividade paralelamente aos sobreiros como por exemplo a criação de gado. Sabendo eu que o montado de Sobro é um investimento a longo prazo acho que é um desperdício não se aproveitar mais aquele terreno para outras actividades.

Grato pela sua atenção 

Com os melhores cumprimentos 

Comentários:
1. Verifique que culturas e atividades agrícolas e pecuárias existem na envolvente.

2. Tente saber  quem compra e valoriza as produções do indicado em 1.

3. Visite produtores que se dedicam às atividades com potencial para o seu terreno e vá à procura dos seus "ossos de ofício". Não descanse enquanto não souber ou dominar todos os pormenores dos negócios agrícolas que pensa vir a dedicar-se no futuro.

4. Leia a fundo este blogue porque tem imensa informação e conhecimento, mas mais que tudo conselhos sobre o modo de iniciar o seu projeto agrícola.


5. Para saber mais especificidades dos eventuais investimentos para o seu terreno, marque uma visita para o Arq. Benjamim  Machado (924433183). 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Artigo Publicado na Edição 300 da Gazeta Rural (revista publicada no dia de hoje)

Questões sobre a fileira dos vinhos do Dão*

É meu objetivo no presente artigo contribuir para o debate e melhoria da massa critica na fileira dos vinhos do Dão. Na minha opinião e na qualidade de apreciador de vinhos, busco novas marcas, novas propostas, a região demarcada do Dão, pelas suas caraterísticas de solos, climas, castas e saber fazer dos seus players, viticultores, vinificadores e comercializadores, produz dos melhores vinhos de mesa de Portugal. A região tem potencial a longo prazo, para liderar de forma inequívoca, reconhecida, traduzida em prémios, comunicação, turismo, valor acrescentado, riqueza distribuída por toda a superfície regional, a liderança e o topo da qualidade fantástica dos vinhos de Portugal.
É minha convicção quem produz uvas terá algumas dificuldades, pelo que, a 1.ª questão que coloco é sobre a rentabilidade da produção de uvas, ou seja, quem é exclusivamente produtor de uvas, o viticultor, a base da cadeia, tem a rentabilidade intrínseca para o efeito? Tem condições e incentivos no valor como as uvas são pagas, para que o seu maior esforço na qualidade, rigor, determinação, colocadas no terreno, na parcela, na videira, se traduzem em maior valor financeiro? O empresário vitícola é suficientemente reconhecido pelos compradores/valorizadores das uvas e pela sociedade pelo seu esforço e sacrifício? Vale a pena fazê-lo? Em síntese, é negócio ser exclusivamente produtor de uvas? É uma mais valia que dá para sustentar a família de forma digna e sustentada no tempo? Ou pelo contrário, para obter a justa valorização do seu empenho o viticultor tem que ser simultaneamente vinificador, transformar-se na entidade que faz e mais do que isso, comercializa o vinho? Tem necessidade para sobreviver de se apropriar da margem do elo seguinte da fileira?
Deixo as questões para reflexão dos membros da fileira dos vinhos do Dão e da sociedade em geral: O que fazer para melhorar o negócio da produção de uvas? O mercado funciona em função da oferta e valoriza o incremento na qualidade das uvas?
Continuo com 2.ª bateria de questões sobre os restantes elos da fileira dos vinhos do Dão: será o negócio da vinificação gerador de maior margem líquida que a produção? Há equilíbrio e funcionamento de mercado entre produzir uvas e transformá-las? Ou, quem concentra as produções apropria-se de forma desequilibrada da margem financeira? Ou sendo esta última interessante, podem os players da vinificação existirem de forma autónoma o 3.º elo da cadeia, o conjunto das entidades que só comercializam o vinho? Ou é mais eficaz, gera melhor resultado económico, quem vinifica distribuir os vinhos? 
Coloco esta bateria de perguntas porque a verticalização no negocio das uvas e do vinho, fenómeno que acontece à escala mundial, que se verifica nas principais regiões vinhateiras de Portugal e representa uma incorporação da atividade dos players da fileira, isto é, à medida que o tempo passa, começa na comercialização a qual reunifica com a vinificação e posteriormente, caminham para colocar a vinha e a produção de uvas na mesma entidade, ou seja quem distribui e comercializa vinhos também os industrializa e produz, tira partido das economias de escala, das ajudas públicas, da imagem junto de mercado de serem produtores. Em Portugal verifico nas diversas regiões vinhateiras o esmagamento da margem financeira do conjunto muito alargado de micro, pequenos e médios viticultores seus fornecedores, seja na valor das produções, seja nos prazos de pagamento. Este rolo compressor não é muito notado pela sociedade porque são muito generosas as ajudas públicas à plantação de vinhas, ao desenvolvimento da fileira e à promoção internacional dos vinhos.


*José Martino - CEO da “Espaço Visual” e da “Ruris – Desenvolvimento” 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O que explorar nesta propriedade?

Boa tarde, Sr. Engenheiro José Martino,

Sou um jovem de 30 anos, casado e recentemente adquirimos uma propriedade de 5 hectares localizada em ... para uma vida de autosuficiência|sustentável|ecológica.

Temos poucas despesas.

A propriedade já possui árvores de fruto e com uma produção que ultrapassa as necessidades do consumo familiar ( falo de maçãs bravo-esmolfe e focinho de burro, figos, azeite, ginjas e marmelos).
Boa parte da propriedade não está aproveitada e tal dá-me alguma tristeza, pelo que penso torná-la rentável.

O que explorar nesta propriedade? Não pretendo ganhar escala, mas sim ter algum rendimento familiar e evitar ter terra abandonada.


A transformação de Ginja daria valor acrescentado?Explorar cultivares de fruta regionais?

Tal seria motivo para candidatar-me a jovem agricultor?ou será um risco desnecessário tendo em conta a nossa realidade ( uma vida simples).

A produção biológica seria a que mais se enquadra nos nossos valores.

Aguardo algumas dicas.

Atentamente, 

Comentários:
1. Amalise dentro das produções que faz na sua exploração agrícola aquela ou aquelas que estão melhor adpatadas às condições de solo e clima locais e ao mesmo tempo faça uma pesquisa de mercado, realize contatos para encontrar operadores comerciais grossistas que possam ter interesse na valorização desses produtos.

2. Defendo que deve candidatar-se às ajudas de jovem agricultor porque não há investimentos sustentáveis mesmo em pequena escala que sejam baratos. Como vai investir por sua conta, captando os apoios públicos do jovem agricultor consegue baixar o risco do investimento.

3. O modo de produção biológica é uma excelente opção sobretudo se tirar partido da agricultura biodinâmica. 

A questão é: podemos ser todos empreendedores?

A resposta é não. Para se ser empreendedor é preciso ter perfil, o mínimo de capital para o efeito ou em sua substituição uma forte ambição ou eficiente e eficaz capacidade para fazer negócio (transformar produto ou serviço em dinheiro).
Na verdade, há os que podem mas não sabem; há os que podem mas não querem; há os que não podem mas sabem e querem. São estes últimos que as Incubadoras devem apoiar no lançamento dos seus projetos agrícolas inovadores, criadores de emprego e riqueza, catapultando muitas vezes os parcos recursos próprios dos empreendedores. A banca deve olhar e apoiar de maneira diferente estes novos players que muitas vezes desesperam pelo apoio financeiro para as suas empresas “start up”.


O que fazer para apoiar os empreendedores? Criar uma rede de incubadoras de base rural de cariz municipal que incluam bancos de terras (as Câmaras Municipais arrendam terras aos proprietários, garantem as rendas e disponibilizam por subarrendamento aos empreendedores) criar com o mesmo principio do crédito à habitação (dar um imóvel como garantia para o empréstimo de muito longo prazo (20 a 40 anos) tendo como base para prestação mensal (juros mais amortização do empréstimo) a taxa  de esforço no rendimento do agregado familiar (utilizam-se como base de cálculo os valores do IRS) e avance-se para uma formação profissional eficaz.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Políticas de nova geração para as agriculturas de Portugal


1. Colocar mais 500 M€ no orçamento de Estado para 2018 com o objetivo de reforçar a componente nacional de apoio aos projetos de investimento na agricultura  e florestas o que iria desbloquear os atrasos nos pagamentos do PDR2020 em 2018 e financiar as medidas reforma da floresta (sem o reforço orçamental não haverá mudança estrutural).   Paralelamente negociar com Bruxelas que este valor não conte para efeito de défice excessivo.

2. Colocar em dia as análises, contratações e pagamentos das candidaturas de apoio ao investimento no âmbito do PDR 2020.    

3. Numa altura de escassez das ajudas devem ser utlizados critérios de atribuição de ajudas públicas ao investimento que defendam os superiores interesses públicos de Portugal, critérios a majorar em próximos concursos:
1.º)  Privilegiar os jovens agricultores: todas as candidaturas de 1.ª instalação de jovens agricultores aprovadas, obrigatóriamente serão financiadas.
2.º) Prioridade de acesso aos fundos públicos de apoio ao investimento e rendimento para explorações situadas nas regiões do interior de Portugal
3.º)  Os sócios das OP’s
4.º) A agricultura de precisão e novas tecnologias

4. Melhorar a visão dos negócios da agricultura para que a banca possa apoiar de forma efetiva aos investimentos de longo prazo 20 a 30 anos, sobretudo ao nível das plantações, melhoramentos fundiários e infraestruturas em detrimento do crédito à habitação.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Negócio nas agriculturas de Portugal

Há um movimento positivo que consiste na melhoria dos negócios nas agriculturas de Portugal, uma maior empresarialização dos campos, uma mudança que se está a viver de forma não planeada e que vai ser estrutural a longo prazo para todos aqueles que conseguirem ao longo do tempo ter resultados que garantem a rentabilidade e sustentabilidade.

Há empresários que, mesmo sem experiência, têm perfil para gerir negócios, conseguem avaliar pessoas de forma eficaz sejam colaboradores, fornecedores e clientes, têm competências para formar e gerir equipas, coragem, liderança, capacidade de risco, etc. e este portefólio de competências é o ponto determinante para o sucesso nos agronegócios. 

As oportunidades que a agricultura está a gerar são muitas e diversificadas, há a possibilidade de organizar os pormenores das explorações agrícolas, de aprender a fazer bem ou muito bem, com todos aqueles que têm sucesso, há um conjunto de alguns produtores que no terreno são o exemplo acabado da boa gestão, verdadeiras metodologias empregues pelas empresas multinacionais para gerar valor acrescentado, líderes que devemos copiar e adaptar as boas práticas. Há um campo vasto de aprendizagem, assim sejamos humildes, resilientes, perseverantes, bem organizados e disciplinados. É um caminho pioneiro que vale a pena iniciar e percorrer, é duro mas fonte de satisfação pelo sucesso e resultados.

A agricultura moderna é o admirável mundo novo que se nos abre de par em par, é uma oportunidade, quer pela entrada de novos agentes, quer por novas competências, quer por uma nova visão. Tudo isto é corporizado nos empresários, são eles que criam e fazem os negócios florescer.. 

O Rigor do Ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos

Excerto da entrevista que o Ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos concedeu à jornalista Teresa Costa do Dinheiro Vivo e publicada em https://www.dinheirovivo.pt/entrevistas/estao-em-curso-as-duas-maiores-reformas-que-o-pais-viveu-em-muitas-decadas/ no dia 19,08,2017, pelas 8:02h.

....
Tenciona pedir mais dinheiro às Finanças para o orçamento agrícola de 2018?

Em 2016 e 2017, o Ministério das Finanças e a Assembleia da República não negaram ao Ministério da Agricultura os meios necessários, e estou certo que assim será em 2018 e 2019. A primeira prioridade é a execução dos fundos comunitários, para que possamos mobilizá-los. No caso da agrícola, com cofinanciamento nacional, são cerca de 600 milhões de euros por ano, portanto, a minha primeira prioridade foi conseguir no orçamento de 2016 e 2017 os meios necessários para a contrapartida nacional que permitam a execução plena dos fundos comunitários. Consegui, em 2016, executar 100% da dotação anual do programa, tendo em conta que em 2014 a execução tinha sido de 0% e em 2015 tinha sido também muito baixa. Primeira prioridade: executar 100% em 2016, o mesmo objetivo para 2017, que estou certo que vamos cumprir e trata-se de em 2018 de começar a recuperar os atrasos de 2014 e 2015.

Em relação ao PDR2020, há queixas de atrasos na análise dos pedidos de pagamentos. Confirma?

Há um ano encontrei o PDR completamente paralisado, não havia um único projeto contratado e posso dizer que, agora, 30 mil projetos estão analisados e neste momento contratados e em pagamento projetos que implicam um investimento na ordem dos dois mil milhões de euros e um apoio público que se aproxima dos mil milhões. Uma recuperação em ano e meio verdadeiramente notável. Admito que possam existir atrasos pontuais, mas a situação está muito perto da normalidade depois da situação caótica que encontrei.

Comentários:
1. Nos últimos 5 anos todo o orçamento comunitário disponibilizado a Portugal foi executado a 100% por ter havido contrapartida de fundos nacionais, o que corresponde a 600 M€ de apoio ao investimento (+/- 90 M€ de orçamento nacional).

2. Como as ajudas ao investimento correspondem a uma taxa média de apoio de 50% em subsídio não reembolsável, equivale a uma contrapartida de 1200 M€ de investimento realizado anualmente pelos agricultores e apoiado com fundos públicos europeus e nacionais.

3. Repare o leitor na subtileza e sagacidade política do experiente ator em causa, o que se traduz na precisão das seguintes palavras da entrevista: “…neste momento contratados e em pagamento projetos que implicam um investimento na ordem dos dois mil milhões de euros e um apoio público que se aproxima dos mil milhões”, contratados e em pagamento! Projetos contratados têm como contrapartida pagamentos no tempo futuro, nunca no presente, pois a pagamento no corrente ano 2017 o Ministério da Agricultura só pode fazer 600 M€, parecendo indiciar para os desprevenidos que se estariam a pagar 1000 M€, contrapartida de 2000 M€ de investimento, aliás este é o título da edição impressa do Dinheiro Vivo publicada no passado sábado “Capoulas Santos “Estão a pagamento projetos de investimento de dois mil milhões de euros no PDR2020””. Em conclusão, o Sr. Ministro Capoulas Santos foi rigoroso nos termos utilizados, a realidade que se passou foi outra... O leitor tire as conclusões que entender!   

Em próximo post irei voltar a comentar este excerto da entrevista 

sábado, 19 de agosto de 2017

Seca: prevenir em vez de remediar





Artigo publicado no Jornal "Vida Económica" da passada 6.ª Feira, 18 de Agosto.

No início desta semana, o ministro da Agricultura Capoulas dos Santos, veio a público afirmar que o Governo irá apoiar financeiramente os agricultores atingidos pela seca extrema que se tem feito sentir e que tem prejudicado a atividade agrícola.
Aplaudo a rápida intervenção do ministro Capoulas dos Santos, mas não pode deixar de sentir que o País e o(s) Governo(s) são geralmente rápidos a divulgar apoios financeiros mas muito lentos a apresentar soluções e a prevenir este estado de coisas, como se viu também no incêndio de Pedrógão Grande.
Não basta acudir financeiramente aos que são prejudicados. É preciso erradicar, ou pelo menos minorar com planeamento, estes prejuízos, quando ocorrem estas catástrofes.
Catástrofes, como os incêndios ou a seca, que são cada vez mais frequentes. É prevenir e não apenas remediar.
No caso da seca há dezenas de anos que se sabe existência deste problema e por isso, não estranha que em 31 de julho último, segundo o IPMA, quase 79% de Portugal continental encontrava-se em situação de seca severa e extrema, 69,6% e  9,2%, respetivamente. Por outro lado, em seca moderada estavam 16,5%, em seca fraca 4,2% do território e 0,5% estava em situação normal. A precipitação no mês de julho foi fraca, 5,3 mm (38% do valor médio). O que acho extraordinário é que não se esteja a aplicar um plano estratégico para proteger a matéria orgânica nos solos, para a utilização de regadios em todo o território nacional, bem como o uso racional da água de rega.
Na minha atividade de agrónomo de campo verifico que a maioria dos meus clientes que depende do abastecimento de água dos furos ou poços já tiveram ou têm quantitativos inferiores quando comparados com os disponíveis nos anos anteriores. Por isso, tiveram de proceder com urgência à abertura de novos poços ou furos, enquanto que noutros casos, procederam à racionalização no uso da água durante a rega (regas melhor monitorizadas, controlo da evaporação, rega deficitária (aplicar quantitativos que garantem que as plantas não morrem e obtêm-se produtividades dentro de níveis mais baixos face aos obtidos sem racionamento da água de rega, mas de qualquer modo interessantes porque determinam produtividades e qualidade que geram rentabilidade à atividade agrícola em causa, etc.)).
Este um desafio ou limitação que veio para ficar, obriga à tomada imediata de medidas com caráter de urgência para no curto prazo se evitarem catástrofes caso não haja precipitação mínima adequada até final do mês de outubro, por um lado e outras ações de médio ou longo prazo que passam entre outras, pelas ações indicadas acima relativas ao plano estratégico para combater a seca, por outro lado. Faço votos que desta vez todo o território nacional tenha os recursos necessários e suficientes para prevenir as catástrofes na agricultura, com os meios necessários em função da respetiva necessidade e limitações.

José Martino
       Consultor e empresário agrícola
  

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Opinião - Gazeta Rural























Empresários Agrícolas de Sucesso – Precisam-se!

Um empresário agrícola de sucesso deve fazer a auto análise prévia das suas competências empreendedoras, à entrada no negócio ou realização do investimento, através da apreciação da sua capacidade de avaliação das pessoas (e.g. prestadores de serviços, colaboradores, fornecedores e clientes), liderança pelo exemplo, coragem para enfrentar os momentos difíceis e recomeçar com a motivação do 1.º dia, resiliência, capacidade para lidar com a adversidade que aparece nos primeiros anos e uma forma generalizada, evidenciando a aprendizagem para ter como resposta um comportamento e maneira positiva da ação, determinação, foco nos objetivos, motivação pessoal muito forte para fazer acontecer até que os objetivos se cumpram, mesmo os muito custosos e que geram sacrifícios pessoais, mesmo aqueles que são complexos e que demoram anos a serem atingidos (e.g. “Capacidade de levar a carta a Garcia”). Por outro lado não há empresário e negócio sem risco, este pode ser mais ou menos provável, pelo que, o empresário tem de possuir a capacidade para assumir os riscos do negócio ( e.g. como diz o ditado popular  “quem pensa não casa; quem casa não pensa). Por último, não menos importante tem de possuir “objetivos claros do projeto (e.g. gerar um salário/sustentar a família; rentabilizar terras de família; remunerar capitais, etc.), assim como ter capacidade para conseguir o financiamento necessário, seja para investimento, seja em exploração da atividade.


Com o negócio a decorrer o empresário de sucesso tem de acompanhar os pormenores da atividade diária da empresa agrícola, regista-los, tratar os respetivos dados recolhidos e tomar decisões com base nesse conhecimento adquirido. Este controlo é da responsabilidade do empresário e a parte operacional é função direta do chefe de exploração, o qual pode ser o próprio empresário ou um trabalhador por conta doutrem. O resultado do trabalho desta pessoa, deste líder/controler, é chave para o sucesso produtivo da exploração agrícola traduzido em resultado financeiro e económico. Para tal é preciso que o chefe de exploração acredite que a sua atividade a desenvolver irá ter sucesso e ao mesmo tempo que tenha competências para a função nomeadamente, capacidade de observação, interesse em aprender mesmo os pormenores mais enfadonhos até às matérias mais complexas, busca incessante de soluções para os problemas que aparecem no dia a dia de uma exploração agrícola, seja nos mais irrelevantes até aos mais importantes ou determinantes, rigor e disciplina no pensamento e na ação, coragem para recomeçar após o fracasso procurando fazer melhor em cada dia face ao dia anterior mesmo que os resultados momentâneos sejam péssimos ou ruinosos, determinação em cumprir e fazer objetivos, capacidade de gestão de pessoas e equipas, etc.

Ou seja todas estas características e qualidades do empreendedor, traduzem-se na prática através da realização das operações culturais na respetiva melhor oportunidade técnica, na prevenção de problemas ou na sua eliminação rápida, atempada e eficaz.


Do ponto de vista operacional um bom gestor é capaz de elaborar o plano de ação anual do negócio ou campanha de produção e o respetivo orçamento, bem como pela respetiva implementação e controlo de desvios. A gestão de operações e os seus custos são objeto de permanente foco com o objetivo de garantir que estão em linha com o planeado ou que novas operações decorrentes de alterações climáticas, pragas ou doenças, alterações fisiológicas, etc. são rapidamente incorporadas no plano e os seus custos colocados no orçamento e consequentemente, realizados os ajustamentos possíveis noutras operações culturais para ajustar e minimizar os custos de produção.

sábado, 12 de agosto de 2017

Artigo do Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural ( Luís Capoulas Santos) Jornal Público 2017.08.11 e comentários

Alqueva e floresta, reformar é persistir

Apesar de todas as críticas, não houve força para travar ou desvirtuar a arquitetura de uma reforma vital para o país.

Há 20 anos, tive o privilégio de integrar um Governo que lançou uma das maiores, se não mesmo a maior, reforma da agricultura portuguesa: o projeto de Alqueva, cujo sucesso hoje ninguém contesta e cuja ampliação em mais um terço da área inicialmente prevista está prestes a concretizar-se. Alqueva constituiu-se mesmo como o melhor exemplo da capacidade de reformar, inovar e aumentar a competitividade, transformando uma região estagnada do ponto de vista agrícola num polo de desenvolvimento que surpreende os estrangeiros e orgulha os portugueses. 

Porém, há duas décadas, aquando da tomada de decisão de avançar com o projeto, choveram críticas de todos os quadrantes: desde estar em curso a criação de um "elefante branco" e um sorvedouro dos dinheiros públicos à impossibilidade "cientificamente comprovada" de completar alguma vez o enchimento da albufeira, ou até de assegurar o estabelecimento de um preço da água compatível com qualquer atividade agrícola, para além de todos os impactos negativos para o ambiente e para o clima que se possam imaginar, invocados até por entidades e personalidades de credibilidade inquestionável.

Bastaram menos de 20 anos para que a voz dos críticos se fosse apagando aos poucos e que até muitos dos outrora contestatários se convertessem em extremosos defensores de um projeto que, hoje, recolhe unanimidade nacional.

Assim está a acontecer com a Reforma da Floresta que o atual Governo teve a coragem de empreender, apesar de se saber que serão necessários anos até que os seus efeitos e benefícios sejam visíveis. Mais uma vez, políticos, comentadores e entendidos de todos os tipos se lançaram em ruidosa contestação, sem fundamento ou justificação, criticando até, e bastas vezes, a ausência de medidas que a simples leitura dos diplomas revela estarem neles contidas! 

Apesar de tudo, a Reforma da Floresta avançou: oito ministros envolvidos, meses de discussão dentro do Governo, dois Conselhos de Ministros extraordinários dedicados ao tema, três meses de discussão pública, debate aceso na Assembleia da República, acompanhamento e observação atenta e incentivadora do Presidente da República. Nem as críticas, amplificadas até à exaustão pela comunicação social, nem os lóbis, diversos e poderosos, nem a luta política, nem o escrutínio das instituições da República impediram o seu avanço irreversível. Não há maior força do que a força da coerência e da razão. 

Dos 12 diplomas, interligados, que constituem o início e a base da Reforma da Floresta, dez já estão aprovados e promulgados pelo senhor Presidente da República. O 11.º, cuja discussão foi adiada para outubro pelo Parlamento (referente à atribuição de benefícios fiscais), tem aprovação certamente garantida, e o 12.º, o Banco de Terras e o Fundo de Mobilização de Terras, foi adiado por um ano. 

Quer isto dizer que, apesar de todas as críticas, expressas e veladas, e do árduo trabalho dos grupos de pressão, não houve força para travar ou desvirtuar a arquitetura de uma reforma vital para o país e que, para ter êxito, vai exigir o empenho e a determinação de vários governos, que não podem sucumbir à ilusão do aplauso e de ganhos políticos no horizonte curto do seu mandato. 

Bem sei que a tarefa mais árdua é a que se avizinha, a da execução, que vai exigir empenho, determinação e meios de vários ministérios. É o caso da Justiça, na implantação do cadastro, do Ambiente, no ordenamento florestal, da Agricultura e da Administração Interna, na prevenção dos incêndios, da Economia, no aproveitamento da biomassa para fins energéticos, das autarquias locais, das organizações de produtores florestais e das populações rurais. Esta reforma, mais do que qualquer outra, exige a mobilização de todos porque, apesar de a propriedade ser esmagadoramente privada, a floresta é pertença comum. 

Tenho absoluta convicção que não serão necessários 20 anos para que a tão contestada Reforma da Floresta recolha a unanimidade, o aplauso e o orgulho de todos os portugueses, tal como hoje reúne o contestado Alqueva de ontem. 

O autor escreve segundo as normas do novo cordo Ortográfico

Comentários:
1. Ninguêm constesta o interesse público do investimento no Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva. Porém vale a pena refletir sobre a eficiência e eficácia do dinheiro público de Portugal e da Europa aplicado, ou seja, o mesmo montante, há quem fale em 2500 M€ outros em 3500M€, gerido de outra forma poderia gerar outros resultados, quer no dia de hoje, quer a médio longo prazo. Ficam algumas questões para obter respostas de quem souber, tiver competências e conhecimento para o efeito e para memória futura:
1.1. Porque não houve prévia ou durante ou após o investimento a elaboração de um Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Regadio/Região?
Na minha perspetiva deviam ser gastos 25 a 35 M€ na elaboração deste documento, cuja autoria deveria ser um consórcio entre as principais universidades, politécnicos, ligados à agricultura com as principais empresas consultoras. Lembro que os grandes regadios nos países europeus têm na sua zona geográfica de intervenção localizadas agroindustrias que são âncoras na promoção de culturas, aproveitamento rápido da superfície agrícola disponivel e na valorização acrescentada das produções.   
1.2. O modelo de incremento do valor dos terrenos entre terras em sequeiro e terras em regadio é equilibrado entre a componente privada (propriedade dos terrenos) e a componente pública (investimento na infraestrutura do regadio) bem como os superiores interesses públicos decorrentes deste forte investimento infraestrutural?
Lembro que do ponto de vista médio o valor patrimonial dos terrenos incrementou-se pelo menos 10 vezes mais decorrente do investimento exclusivamente público, que não há praticamente terrenos disponveis para arrendar, que muitos dos terrenos são cedidos tendo como contrapartida 15 a 20% de participação societária do proprietário na sociedade que irá explorar a terra.
1.3. Os projetos e a infraestrutura do regadio são os mais ajustados às condições do terreno, fiáveis, com baixo custo de exploração e manutenção? Quanto irá custar a manutenção do regadio? O modelo de exploração será sutentável  financeiramente a médio longo prazo  onde haverá o incremento dos custos de exploração e manutenção do regadio?
1.4. As limitações das características físicas dos solos, as suas deficientes fertilidades, não acarreterão a prazo limitações nas produtividades e qualidade das produções?
1.5. Não deveria o investimento no Alqueva ter gerado até ao dia de hoje pelo menos a criação de largos milhares de postos de trabalho (40 000: um posto de trabalho por cada 3 ha) quer na agricultura, quer na agroindustria, quer nos serviços e forencimento de fatores de produção?
1.6. A sustentabilidade das atividades agrícolas implementadas no regadio do Alqueva não terá o mesmo paralelismo, como há menos de 10 anos nos indicavam de forma unânime, a solidez da banca nacional? A falta de agroindustria no Alentejo, as variações de preço nas produções agrícolas ao longo de 10 anos, o deficiente valor acrescentado gerado pela agricultura, etc. não trarão a prazo  crise para a agricultura?
1.7. O preço da água de rega nos dias de hoje, no futuro próximo e a longo prazo, estão fixados de forma justa tendo em conta o custo de exploração dos regadios privados, sejam coletivos, sejam individuais?

2. Reforma das florestas
O conjunto dos diplomas aprovados e a aprovar, com a respetiva implementação da legislaçao irão resolver os principais problemas das florestas de Portugal?
Problemas das florestas:
2.1. Alta percentagem média da superfície média anual afetada por fogos e incêndios florestais em Portugal face aos países mediterrâneos.
2.2. Incremento anual da superfície de matos e incultos e diminuição da superfície florestal.
2.3. Falta de valor acrescentado e rentabilidade das produções florestais.
2.4. Deficiente gestão florestal  na grande maioria de propriedades florestais públicas e privadas.
2.5. Desordenamento florestal.
2.6. Incremento da massa combustivel 
2.7. Zonas de Intervenção Florestal inoperantes.
etc. etc.
3. Qual o orçamento de Estado disponivel para permitir implementar a legislação da reforma florestal?
4. Não será determinante elaborar um Plano Estratégico para as Florestas de Portugal tal como defendo acima para o Alqueva?
5. Não será a pecha da não realização do indicado em 5. que explica as razões para todas as outras reformas florestais anteriores nunca terem dado resultados?  
6. A maior reforma não será o incremento da superfície florestal feita pelo emparcelamento funcional através de arrendamento de terrenos florestais recorrendo a banco de terras (os proprietários colocam o seu património fundiário (terrenos) no banco e recebem o juro como contrapartida da disponibilização do capital terra através da renda? 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O que é gerir bem uma exploração agrícola?


Na minha perspetiva passa por acompanhar os pormenores da atividade diária da empresa agrícola, regista-los, tratar os respetivos dados recolhidos e tomar decisões com base nesse conhecimento adquirido. Este controlo é da responsabilidade do empresário e a parte operacional é função direta do chefe de exploração, o qual pode ser o próprio empresário ou um trabalhador por conta doutrem. O resultado do trabalho desta pessoa é chave para o sucesso produtivo da exploração agrícola traduzido em resultado financeiro e económico. Para tal é preciso que o chefe de exploração acredite que a sua atividade a desenvolver irá ter sucesso e ao mesmo tempo que tenha competências para a função nomeadamente, capacidade de observação, interesse em aprender mesmo os pormenores mais enfadonhos até às matérias mais complexas, busca incessante de soluções para os problemas que aparecem no dia a dia de uma exploração agrícola, seja nos mais irrelevantes até aos mais importantes ou determinantes, rigor e disciplina no pensamento e na ação, coragem para recomeçar após o fracasso procurando fazer melhor em cada dia face ao dia anterior mesmo que os resultados momentâneos sejam péssimos ou ruinosos, determinação em cumprir e fazer objetivos, capacidade de gestão de pessoas e equipas, etc.
Tudo isto que indiquei irá traduzir-se na realização das operações culturais na respetiva oportunidade técnica, na prevenção de problemas ou na sua eliminação rápida, atempada e eficaz.

Do ponto de vista operacional a boa gestão passa pela elaboração de plano de ação anual ou de campanha e o respetivo orçamento, bem como pela respetiva implementação e controlo de desvios. A gestão de operações e os seus custos são objeto de permanente foco com o objetivo de garantir que estão em linha com o planeado ou que novas operações decorrentes de alterações climáticas, pragas ou doenças, alterações fisiológicas, etc. são rapidamente incorporadas no plano e os seus custos colocados no orçamento e consequentemente, realizados os ajustamentos possíveis noutras operações culturais para ajustar e minimizar os custos de produção.

Por outro lado é muitíssimo importante encontrar os operadores comerciais que deem valor acrescentado às produções, procedendo aos pagamentos nas datas combinadas/contratualizadas.

No final de cada ano ou campanha, o empresário deve proceder a uma análise crítica ao plano de ação e orçamento, comparar entre o planeado e o executado, junto com a análise financeira e económica dos resultados obtidos. Deve anotar o mais importante e incorporar esse conhecimento no plano e orçamento seguintes.

É prudente e de boa gestão possuir duas atividades dentro de cada exploração agrícola como forma de minimizar o risco decorrente de uma delas ter deficiente rentabilidade momentânea. O empresário agrícola deve ter uma atitude permanente de aceitação e implementação de reconversão e mudança de atividades. Esta estratégia é chave para o sucesso empresarial do projeto.  

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Voz do Campo - Grande Reportagem


Continua a ser rentável ...
para quem faz investimentos ponderados
Novas espécies e variedades representam uma estratégia para diminuição do risco de produção, seja por alargamento do portefólio de produtos, seja pelo atingir novos mercados fora dos tradicionais.

“Continua a ser rentável investir na kiwicultura para quem faz investimentos ponderados, colocados em parcelas com aptidão de solo e clima adequados para esta cultura, tem capacidade de gestão, sendo capaz de formar devidamente as plantas e conduzir a exploração, fazendo com que as actinídeas produzam com elevada produtividade e alta qualidade dos frutos, traduzida esta no peso médio acima dos 100 gramas por fruto, sem defeitos de epiderme ou forma, elevado tempo de conservação frigorífica (pelo menos 6 meses), frutos duros, bom sabor, produção certificada em Global.G.A.P. etc.”, é assim que responde o consultor agrícola José Martino à nossa questão se ainda é rentável investir em kiwicultura. Vai mais longe ao afirmar que é muito interessante porque “o preço de valorização dos frutos recebido pelo produtor é acima do custo de produção, quer em termos financeiros, quer em termos económicos.
Na visão do mesmo, é bom recordar que nos últimos (15) anos a fileira do kiwi tornou-se mais profissional, organizada e exportadora. Neste prazo temporal foi constituída a APKAssociação Portuguesa de Kiwicultores, a qual congrega produtores, entrepostos e técnicos. “Esta Organização da fileira veio trazer liderança à fileira, com foco no incremento da taxa de kiwis exportados, traduzindo-se na melhoria do valor acrescentado gerado. Houve incremento da superfície de produção, sobretudo na vertente profissional (mais de 4 hectares de superfície por exploração) e ao mesmo tempo que apareceram novos entrepostos, KiwiGrensun, PROSA e PMNI houve concentração à volta, quer dos mais recentes, quer dos mais antigos, Kiwicoop e Frutas Douro ao Minho” reconhece o técnico.
 Ultimamente têm sido introduzidas novas espécies e variedades de kiwi, rentáveis, na visão deste consultor “porque exploram novos segmentos dos mercados que os kiwis de polpa verde não conseguiam chegar, porque são frutos mais doces, menos ácidos, mais simples no ato de consumo, etc. Para o produtor a sua cultura representa uma estratégia para diminuição do seu risco de produção, seja por alargamento do portefólio de produtos, seja pelo atingir novos mercados fora dos tradicionais”.
 À nossa questão se faz sentido pensar na cultura do kiwi em Alqueva, onde estão a ser feitas culturas que até há pouco tempo seriam impensáveis, José Martino defende que o kiwi deve ser instalado nas regiões onde tem maior aptidão para a cultura: Minho e Beira Litoral. “São regiões com elevada humidade atmosférica, com frio de inverno acima das 500 horas de temperatura abaixo dos 7,2ºC, verões cuja temperatura não ultrapassa, por largos intervalos de tempo, os 30ºC.
Defendo que só depois de esgotadas as superfícies disponíveis nestas duas regiões se deva avançar para outras que tenham elevados quantitativos de água disponível para rega”

O surgimento de pragas e doenças, nomeadamente a PSA, tem ameaçado a cultura?

José Martino: As novas pragas e doenças são desafios que o kiwicultor tem experimentado ultrapassar com sucesso. É lógico que as práticas culturais que ajudam a prevenir e controlar os prejuízos decorrentes destes ataques, trazem acréscimo de custos de produção, nomeadamente, mão de obra, produtos, coberturas, etc. Regista-se que acarretam incrementos no custo de produção e que mesmo estes são semelhantes para as produções dos países cujos kiwis concorrem nos mercados com os kiwis de Portugal. Em conclusão, os problemas fitossanitários não ameaçam a cultura, exceto se esta estiver mal instalada, em zonas sem aptidão climática ou em solos fortemente limitados na sua drenagem ou com plantas já contaminadas de viveiros ou para produtores imprevidentes que não utilizem as melhores recomendações culturais para prevenir as doenças ou para variedades mais sensíveis, não estando instaladas coberturas/abrigos para proteger as plantas das precipitações.
Enquanto consultor agrícola, que conselho deixaria a um interessado em produzir kiwi?
José Martino: O conselho que deixo é do mesmo tipo que apresento a qualquer empreendedor agrícola: faça pesquisas na internet e visitas de campo para aprender os pormenores da tecnologia de produção e com base na informação recolhida, elabore um plano de negócio sumário. Após ter percorrido este caminho, contacte consultores, valide o seu plano de negócio e contrate os melhores para elaborar a candidatura. Enquanto aguarda pela aprovação das ajudas públicas de apoio ao investimento, estagie em plantações que tenham histórico de boas produções e bons resultados. Aprenda a gestão empresarial, verifique o que os outros produtores fazem como práticas exemplares, ganhe competências. Visite o número máximo de explorações de kiwi que seja possível, amplie a rede de contatos dos players na fileira do kiwi. Valide os orçamentos do investimento com negociação dos prazos de pagamento. Com a candidatura aprovada passe à ação e faça rapidamente a implantação do pomar. Seja empresário, implemente um sistema de controlo de gestão como se faz em qualquer empresa moderna.
 VOZ DO CAMPO AGO.SET 2017 21


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mecanização Agrícola

Verifico que quem se dedica à agricultura, seja a tempo inteiro ou part time, está muito motivado para a aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas, fazendo a aquisção de material novo, praticamente em todos os casos. Faz parte do perfil psicocultural do português esta obsessão pelos tratores e demais equipamentos da agricultura. Creio que as pessoas da minha geração (50 a 60 anos) que trabalharam na agricultura quando crianças e jovens, desde essa altura, acalentam o sonho de virem a possuir um trator e os seus equipamentos. Creio que o materializam quando têm  terra agrícola ou acesso a ela e possuem capacidade financeira minima para o efeito. Este fenómeno pode-se avaliar nos mais de 40% de montante global dos apoios concedidos pelo ProDeR (2017 a 2013) aos investimentos em máquinas e equipamentos.

Nesta altura em que há escassez nos montantes orçamentados dos fundos públicos, europeus e nacionais, por comparação com os montantes nas candidaturas em carteira, creio que seria uma posição de defesa do interesse público de Portugal,  se tivesssem prioridade na obtenção dos apoios os investimentos em melhoramentos fundiários, infraestruturas e plantações (itens de investimento mais estruturantes, impõem maiores limitações à competitividade).

Creio que com a implementação desta medida de política, perderem a elegibilidade os investimentos em máquinas e equipamentos, haveria forte desenvolvimento  no mercado de 2.ª mão com a consequente diminuição das importações e do seu valor, bem como se incrementaria o valor acrescentado bruto (VAB) da agricultura.

Haverá coragem para tomar esta decisão política estruturante?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SECA



Em 31 de julho último, segundo o IPMA, quase 79% de Portugal continental encontrava-se em situação de seca severa e extrema, 69,6% e  9,2%, respetivamente. Por outro lado, em seca moderada estavam 16,5%, em seca fraca 4,2% do território e 0,5% estava em situação normal. A precipitação no mês de julho foi fraca, 5,3 mm (38% do valor médio).

Na minha atividade de agrónomo de campo verifico que a maioria dos meus clientes que depende do abastecimento de água dos furos ou poços já tiveram ou têm quantitativos inferiores quando comparandos com os disponiveis nos anos anteriores. Por isso, tiveram de proceder com urgência à abertura de novos poços ou furos, enquanto que noutros casos, procederam à racionalização no uso da água durante a rega (regas melhor monitorizadas, controlo da evaporação, rega deficitária (aplicar quantitativos que garantem que as plantas não morrem e obtêm-se produtividades dentro de níveis mais baixos face aos obtidos sem racionamneto da água de rega, mas de qualquer modo interessantes porque determinam produtividades e qualidade que geram rentabilidade à atividade agrícola em causa, etc.)).
Este um desafio ou limitação que veio para ficar, obriga à tomada imediata de medidas com carater de urgência para evitar catastrofes caso não haja precipitação minima adequada até final do mês de outubro, por um lado e outras ações de médio ou longo prazo que passam pelo investimento em regadios que disponham de capacidade para armazenar as precipitações e a utilização de sistemas de rega eficientes no seu uso,  por outro lado.    

KIWIS (2)

O Eng. José Silva, um experiente kiwicultor, escreveu neste blogue::
"Acho que se está a referir à última campanha 2016/2017. Também tivemos resultados muito bons mas falta um muito importante, ou dois: Produtividade / rentabilidade. Horas por operação, gastos, receitas, resultados líquidos... são dados da maior importância para uma atividade que se deseja rentável e competitiva. Parabéns!" 

Este escrito é o seu comentário ao seguinte post que eu escrevi:

KIWIS (1)

Tendo encerrado nesta altura as contas relativas à campanha de produção dos kiwis 2015/2016 (esta campanha começou com a poda de inverno das actinideas/kiwis em dezembro de 2015 e terminou com a colheita dos kiwis em novembro de 2016), os kiwicultores receberam, dos respetivos entrepostos onde são sócios ou fornecedores de kiwis, até final de julho, o documento com as valorizações finais, preços por categoria e calibre, % refugo, % perdas de peso, etc. verifico no meu caso pessoal, kiwicultor há 27 anos, 24 anos de produção, tendo por base o preço por quilo de kiwis entregue (dinheiro total recebido nas diversas prestações a dividir pelo número total de quilos de fruta entegue nos entrepostos) obtive a 3.ª melhor valorização de sempre.

Por um lado, este é o resultado do meu trabalho como empresário e técnico, bem como da minha equipa de campo, Conseguimos em conjunto, uma produção de excelente qualidade, traduzida na distribuição de categorias e calibres, mais de 80% de categoria I e mais de 60% de frutos acima das 100g de peso médio por fruto.
Por outro lado, traduz o bom trabalho dos entrepostos na comercialização e valorização dos kiwis, assim como das condições favoráveisneste ano de 2017,  do mercado internacional de comercialização dos kiwis.


Comentários:
1. Concordo com o Eng. José Silva que o rendimento bruto, (produtividade x preço/kg) consequentemente, a margem bruta (rendimento brutos menos os encargos reais) é mais importante que a valorização avaliada no preço obtido quilo dos kiwis.

2. Estive a aprofundar a avaliação, a valorização por quilo dos kiwis relativamente elevada face ao meu ranking pessoal (3.ª melhor valorização de sempre) contra um rendimento bruto, seriado, relativamente abaixo no ranking (8.º lugar no meu ranking pessoal).

3- A rentabilidade do kiwi é muito interessante e competitiva face ao seu preço de custo, seja na análise financeira (cash flow) seja em análise ecónomica