José Martino - Quarenta anos a semear Futuro: uma Reflexão sobre a vida, o mundo rural e o serviço público
Celebro em setembro de 2026 os 40 anos da minha atividade profissional como agrónomo e defensor do mundo rural de Portugal
Quarenta anos de atividade profissional como agrónomo e consultor não são apenas quatro décadas de trabalho: são quatro décadas de transformação, de aprendizagem contínua e de compromisso com uma causa. Ao longo deste percurso, o mundo rural mudou profundamente. Mudaram as agriculturas nas suas técnicas, nos seus mercados, nas suas políticas, os agricultores passaram de mais de 30% para menos de 5%, o turismo em espaço rural apareceu e criou impacto e valor, e ampliaram-se os desafios ambientais e sociais: o abandono do território; a desertificação; acentuou-se o despovoamento; o envelhecimento da população. Mas uma coisa permaneceu constante: a necessidade de explicar, de aproximar, de traduzir a realidade rural e agrícola para a so ciedade que dela depende, muitas vezes sem o perceber. Foi nesse espaço — entre o mundo rural, a opinião pública e os diversos poderes políticos e institucionais — que procurei intervir, informar e construir pontes.
A Intervenção pública como missão
Escrever em jornais, criar este blog, organizar eventos, participar em debates
e conversas públicas nunca foram apenas atividades paralelas ao meu trabalho
de agrónomo e consultor. Foi parte essencial dele. Não aceito que os agentes do
mundo rural tenham menores rendimentos que os urbanos. O mundo rural precisa de ser compreendido para ser valorizado. Precisa de ser explicado para ser
defendido. Precisa de ser mostrado para ser respeitado. Precisa de ser importante
para ser rico.
Ao longo destes anos, procurei fazer pedagogia:
• explicar o que está por trás de cada cultura ou atividade; mostrar a complexidade das decisões que um agricultor ou empresário rural toma;
• dar rosto aos jovens que querem entrar nas atividades rurais;
• desmontar preconceitos e simplificações;
• e lembrar que as agriculturas e as atividades no mundo rural são, antes de
tudo, um serviço público essencial.
A comunicação tornou-se uma ferramenta de cidadania. E, com ela, a consciência de que informar é também transformar.
A defesa pública da agricultura e do mundo rural
A intervenção pública não se esgota na pedagogia. Ao longo destas quatro
décadas, foi igualmente necessário assumir uma postura firme de reivindicação junto dos poderes públicos. Não por capricho, mas por responsabilidade. A agricultura precisa de políticas estáveis, previsíveis, de apoios coerentes ajustados
e eficazes, de visão estratégica. Precisam de ser tratados como aquilo que são:
um pilar da soberania alimentar, da coesão territorial e da sustentabilidade ambiental.
Reivindicar não é reclamar: é propor, é alertar, é exigir com dados e fundamento. É lembrar que sem agricultores não há alimentos, não há paisagem, sem
empresários não há mundo rural vivo. E que apoiar a agricultura e o mundo rural
é apoiar o país.
Os jovens empresários rurais: esperança e desafio
Um dos maiores motivos de orgulho deste percurso foi acompanhar o surgimento de novas gerações de empresários rurais, sobretudo os agrícolas. Jovens
que chegam com energia, formação, inovação e coragem. Jovens que querem
fazer diferente, mas que precisam de apoios financeiros públicos específicos, adequados, permanentes na linha do tempo, de condições e de reconhecimento.
A eles procurei dar voz, espaço e apoio. Porque o futuro da agricultura e do
mundo rural depende deles — e porque cada jovem que entra no setor é uma se
mente de esperança num país que precisa urgentemente de renovar o seu tecido
produtivo.
Quarenta anos depois: o que fica
Ficam histórias, projetos, debates, textos, encontros, aprendizagens. Fica a
certeza de que valeu a pena cada gesto de esclarecimento, cada intervenção pú
blica, cada esforço para aproximar a sociedade da agricultura e do mundo rural.
Fica também a consciência de que ainda há muito por fazer.
Mas, acima de tudo, fica um compromisso: continuar a defender a agricultura
e o mundo rural com a mesma convicção, a mesma frontalidade e a mesma paixão
que me acompanharam desde o primeiro dia.
Porque ser agricultor e ser rural não é apenas uma profissão. É uma forma de
estar no mundo. É um serviço ao ambiente e à comunidade. É um ato permanente
de confiança no futuro
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